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Redução óssea e colocação de implantes através de guia cirúrgica com carga imediata numa reabilitação total bimaxilar

com Diana de Macedo, Carlota Mendonça, Catarina Martinho, Hugo Madeira

Resumo

As anomalias dentofaciais apresentam consequências graves a nível funcional e estético. A colocação de implantes e de prótese total fixa permite a reabilitação destes casos, com correção do plano oclusal, do perfil facial, da relação intermaxilar dentária, da incompetência labial e do trespasse vertical e horizontal presentes. Através do planeamento digital é possível colocar implantes na posição ideal, sendo anatomica e proteticamente planeados, permitindo procedimentos cirúrgicos mais precisos e menos invasivos, melhor adaptação das próteses e melhores resultados para os pacientes.

Neste caso clínico, é descrito o planeamento digital através de guia de osteotomia e guia de implantes dento e ósseo-suportadas que permitiu a reabilitação imediata total bimaxilar de Classe II esquelética.

 Palavras-chave: implante dentário, osteotomia, anomalia dentofacial, carga imediata, estética imediata, prótese implantosuportada.

Introdução

As principais razões para realizar extração dentária incluem lesões de cárie dentária e periodontite para idades inferiores e superiores a 50 anos, respetivamente. Segundo Kinsel e Lamb (2001), as principais causas associadas à perda dentária incluem lesões de cáries extensas, falha do tratamento endodôntico, número insuficiente de dentes de suporte para reabilitação com prótese fixa, doença periodontal ou várias reabilitações prévias mal sucedidas (Kinsel e Lamb, 2001).

Com o aparecimento dos implantes dentários para a retenção e/ou suporte de próteses, a reabilitação destes pacientes melhorou bastante (Boerrigter e cols, 1997; Kammeyer e cols, 2002; Chipasco e Gatti, 2003; Rutkunas e cols, 2008).

O protocolo original de carga de um implante recomendado por Brånemark e cols baseava-se na manutenção da estabilidade primária máxima e em evitar fatores de carga que pudessem desafiar o processo de osteointegração implantar, sendo este um método convencional previsível a longo prazo no tratamento de pacientes edêntulos (Brånemark, 1983; Brånemark e cols 1985; Lekholm e Zarb, 1985; Alfadda, 2014).

Devido ao desenvolvimento e progresso da morfologia e das características de superfície dos implantes dentários, o conceito de carga imediata tornou-se uma alternativa aos implantes convencionalmente colocados (Nkenke e Fenner, 2006). No entanto, a literatura científica contém várias definições e critérios de avaliação relativamente a este conceito (Mozzati e cols, 2012cid_412 1).

De acordo com o Relatório realizado pela Cochrane em 2007, é recomendado que, para futuras avaliações, as definições do ITI para a carga implantar sejam modificadas a partir do 2004 Consensus ITI Report que inclui:

  • Carga convencional: definida como sendo superior a 2 meses após a colocação do implante;
  • Carga precoce: definida como sendo entre 1 semana e 2 meses após a colocação do implante;
  • Carga imediata: definida como sendo menos de 1 semana após a colocação do implante.

A colocação de implantes imediatamente pós-extração foi introduzida em 1978 (Schulte e cols, 1978), permitindo uma alternativa ao protocolo padrão, no qual tem que se aguardar um período de 3 a 6
meses (Adell e cols, 1981).

As vantagens associadas com esta abordagem incluem um número reduzido de consultas, menor tempo de tratamento, menos intervenções cirúrgicas e elimina a necessidade de utilização de prótese removível
provisória durante o período antes e depois da cicatrização (Esposito e cols, 2010; Drago e Lazzara, 2006; Amorfini e cols, 2011; Mozzati e cols, 2012).

Este protocolo permite também a estimulação e modelação dos tecidos moles, induzida pela carga imediata que tem um efeito benéfico no processo de cicatização tecidual (Mozzati e cols, 2012).

Por outro lado, implantes colocados em alvéolos pós-extracionais podem apresentar fatores de risco relacionados com a insuficiente disponibilidade óssea e com a consequente insuficiente estabilidade primária do implante (Ciabattoni e cols, 2017).

No estudo de Pieri e cols (2009), foi feita a comparação entre implantes colocados em osso maturo e implantes imediatamente colocados e carregados após extração dentária e foram observadas taxas de sobrevivência de 98,8% e 98.3%, respetivamente (Mozzati e cols, 2012). Desta forma, não foi encontrada uma diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos relativamente à estabilidade e perfil ósseo periimplantares (Mozzati e cols, 2012).

Segundo Balshi e Wolfinger (1997) e Chaushu e colegas (2001), a taxa de sobrevivência de implantes pós-extração com carga imediata foi de 80% e 82,4%, respetivamente.

Segundo a revisão sistemática de Lang e cols (2012), existe uma falha anual de 0,82% com uma taxa de sobrevivência a 2 anos de 98,4% para implantes imediatos e próteses implantossuportadas (Clementini e cols, 2015).
O número de implantes utilizados varia significativamente na literatura. Brånemark propôs a utilização de cinco implantes na mandíbula e seis na maxila para apoiar passivamente uma prótese fixa completa, com todos os implantes distribuídos anteriormente, colocados paralelamente entre si (Polido e cols, 2018).

Outros autores relataram a colocação do maior número possível de implantes na maxila, desde seis a dez implantes, e cinco a seis implantes distribuídos entre o buraco mentoniano, na mandíbula (Zarb e Schmitt, 1990; Polido e cols, 2018). Tendo sido proposto por Gallucci e colegas (2016), a utilização até oito implantes na maxila e seis na mandíbula para restaurações segmentares de arcada completa (Polido e cols, 2018).
Existem diversas variáveis a serem consideradas para planear o número de implantes utilizados numa reabilitação total (Ellis e McFadden, 2007; Mericske-Stern, e Worni, 2014; Schley e Wolfart, 2011; Polido e cols, 2018). Estas incluem a condição dos tecidos duros moles, distribuição dos implantes, estruturas anatómicas, aparência estética e facial, escolha do material e desenho da reabilitação, tipo de retenção das próteses e tipo e tempo de carga oclusal (Polido e cols, 2018).

Desta forma, o protocolo cirúrgico inclui várias fases nas quais se incluem o diagnóstico, o planeamento e o procedimento cirúrgico. A implementação de tecnologia CAD/CAM (desenho assistido por computador/fabricação assistida por computador) na prática clínica diária facilita este processo no sentido em que sobrepõe as imagens radiográficas resultantes da tomografia computorizada e o planeamento tridimensional, permitindo, desta forma, a análise e avaliação digital da posição, comprimento e diâmetro ideais dos implantes a serem colocados.

Esta abordagem digital permite a visualização de estruturas anatómicas e evita o comprometimento ou dano das mesmas, tendo em conta, que é possível prever em que local é ideal colocar cada implante (Amorfini e cols, 2011; Cantoni e Polizzi, 2009; Vercruyssen e cols, 2014; Ciabattoni e cols, 2017; Amorfini e cols, 2016; Al-Zahrani, 2008 ; Heitz-Mayfield e cols, 2009).

Este planeamento permite a construção de uma guia cirúrgica que permite que os implantes sejam colocados na posição exata para cada local, sendo anatomica e proteticamente planeados (Ozan e cols, 2009; Marquardt e cols, 2007; D’haese e cols, 2010; Amorfini e cols, 2011).